M. era inteligente e culto, educado e gentil, um jovem de boa família. Muito prestativo, estava sempre disposto a ajudar quem dele precisasse. Incapaz de sentir raiva ou guardar rancor, era muito compreensivo, sempe justificando mesmo as atitudes mais vis dos outros. Não acreditava que as pessoas pudessem agir mal conscientemente, julgando os piores atos e condutas como meros desvios ou descuidos, sempre justificáveis pelas circunstâncias. Por este motivo não conseguia agir de forma contrária a seus princípios. Sua ingenuidade atraia todo o tipo de aproveitador, e mesmo seus amigos admiravam-se de sua nobreza e desprendimento.
Em um momento de grande mudança na sua vida, conhece, atravéz de um pretendente, uma mulher, com quem terá uma turbulenta relação. Uma mulher muito interessante, densa, com muita personalidade, que no entanto era louca. Por motivos incompreensíveis ela tinha atitudes desconcertantes, e misturava nobres palavras com sandices como expressão de sua neurose. Ele, talvêz a única pessoa que a compreendia, perdoava todas a humilhações e todas as vezes que ela o abandonava, o que no entanto transformara seu amor em piedade, sem que ele deixasse de sentir ainda certo fascínio por ela, além do medo que sempre teve.
A mulher foge, afasta-se, mas eles sempre mantêm fortes vínculos. Nosso herói envolve-se noutra relação muito conturbada. Uma jovem de familia tradicional, muito desejada e com muitos pretendentes, que ela usava para diversão e sistematicamente dispensava. Era muito imatura. Graças ao seu talento na lida com as pessoas e ao seu poder de sedução, podia brincar com sentimentos de muita gente, criando sozinha fantasias infantis e envolvendo nela personagens reais. M. envolveu-se nestas estórias, mas não era capaz de interpretar um personagem, se isto feria seus nobres principios, e não compreendia a mentalidade da moça, tratando-a com cuidado e respeito mas sem distinguir a causa de suas angústias. A fantasia da jovem terminou quando o jogo ficou real demais, com o envolvimento da outra dama, a primeira grande paixão dele.
Toda esta história acaba em grande tragédia. O personagem principal cai em desgraça, sempre levado pelas circunstâncias. Este é um aspecto da vida do príncipe Mitchkin, em O Idiota, que eu li recentemente.
Pode parecer, contada assim, mais um triângulo amoroso de folhetim. Mas no texto de Dostoievsky ela ganha uma profundidade impressionante. O autor russo tem uma maneira de traçar perfis psicológicos complexos quase sem caracterizações ou análises, mas contando a história do personagem, suas atitudes e reações. Seus personagens e histórias serviram de referência e exemplo para grandes pensadores como Freud e Nietzche.
Comprei o livro por acaso, na Feira do Livro do ano passado, Em Porto Alegre, agora descobri que virou mania, que está muito comentado. Então mando o meu. O livro é fantástico, dá pra entender porque um cara de tão longe é tão famoso e porque os livros dele são tão lidos, se tão grossos.
2005-06-15
Príncipe
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Unknown
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00:15
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3 comentários:
Li tudo do teu blog, até aqui. Informações culturais, literárias, sociais relatadas com uma linguagem elegante, atraente e concisa, como devem ser os textos, especialmente os colocados em blogs. Estive em Floripa no início de agosto, mas não deu para ir a Campeche. Amo Floripa e sua gente extremamente simpática. Sim, ela não se compara em efervência a Salvador, minha cidade, ou a São Paulo, onde moro, em fartura de opções de lazer e espaços culturais, mas é uma cidade tão MARAVILHOSA como o Rio de Janeiro e atrai como os seus textos.
pois contyinuas me lembrando ele... bizarro !!!
Hahaha, que legal, tem gente que não ia entender o livro nem se conseguisse ler!
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