Semana passada ouvi um pescador, desses bem velhos e enrugados, digno, portanto, de todo o crédito, dizer que só se pesca a tainha até o dia de São Pedro, 29 de junho. São Pedro é um santo protetor dos pescadores, segundo a tradição católica nacional, mas também é o protetor das viúvas, o que talvez justifique o encerramento das atividades pesqueiras.
Acompanho a temporada da tainha desse ano de perto, na praia do Campeche.As bandeirinhas brancas nos postos de salva-vida, indicando pros surfistas que o mar está restrito. Os grupos de pescadores aglomerados na praia pela manhã esperando pelo cardume, as redes e os barcos na praia.
Amanhã estou cedo na praia pra ver se São Pedro espantou mesmo as tainhas e quanto as mulheres temem precisar da proteção do santo de hoje.
2005-06-29
São Pedro e as tainhas
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2005-06-27
A medida, a medida, medida
O que importa sempre é a medida,
não importa de quê,
importa as possibilidades
de movimento
e acertar a medida da energia.
Em cada detelhe e no todo.
Nunca é o que, mas como.
A fantasia domina
Palavra é fantasia
Pensamento é palavra
Fantasia é pensamento
A medida da energia combinada separada aplicada em cada movimento determina o que é.
Por que as coisas não são,
passam a ser ou deixam de ser.
Sempre o movimento.
e a medida.
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2005-06-24
Mandou bem
Tenho um amigo que eu admiro. Fala de rock'n'roll como um erudito. Tem um certo sotaque gaudério que as vezes destoa das palavras cultas, ainda que sem afetação ou pedantismo. Apesar de informata, como eu sou, faz graduação em humanas, por motivações pessoais. O causo em questâo deu-se no decorrer do curso.
Numa certa atividade acadêmica, uma dinâmica de grupo da classe, os alunos deviam apresentar-se e falar de três fatos que marcaram sua vida. Ele contou de quando abandonou a faculdade de engenharia, por ter concluído que não era sua vocação, e como isso gerou um grande conflito com seu pai. Foi talvêz a primeira decisão adulta, uma ruptura certamente necessária para seu desenvolvimento como indivíduo. Relatou sua primeira experiência com alucinógenos, que lhe proporcionou uma mudança de visão do mundo. Por fim declarou neste tom: "A terceira foi quando eu conheci minha ex-mulher. Uma mulher exepcional que me ensinou muitas coisas, com ela vivi experiências de todos os tipos. Aprendi o que é uma verdadeira fêmea".
Ao fim do discurso o professor limitou-se a comentar "Que elegância!", e suas colegas, boquiabertas, o olhavam com a expressão de quem via pela primeira vêz um homem que sabe reconhecer uma verdadeira fêmea.
Nem precisa dizer, o cara conquistou uma legião de fãs. Pelo resto do semestre foi disputado pela metade da turma, composta quase toda por mulheres.
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2005-06-21
Comemorei...
...a lua cheia de ontem com uma modesta fogueira nas dunas do Campeche.
Não sei como tem gente que consegue ir pra casa, dormir cedo, ficar normal, como se nada estivesse acontecendo.
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2005-06-20
Temporada cultural, só temporada
Quem chegou na Ilha em junho e viu mostra de teatro, festival de cinema, de música, shows e até protestos de rua e repressão policial deve ter ficado com uma impressão errada. A gente que mora aqui sabe que tem que aproveitar porque não é sempre. A cidade é fraca em cultura, não tem um circuito onde as pessoas possam se encontrar, as comunidades são ainda específicas e pequenas.
Domingo fui no show da Fernanda Abreu, acústico, mas como eu imaginava, ela não conseguiu fazer um som que não fosse dançante. E o auditório do centro de convenções da UFSC, a exemplo do do CIC, não comporta shows dançantes. Até aí, tudo bem, falta de espaços apropriados é um problema comum. Depois do show eu e algumas pessoas que encontrei quizemos confraternizar, tomar umas e trocar impressões. Parecia simples, encontrar um bar aberto no bairro mais populoso da cidade, perto da universidade.
Naquela quadra tem uns dez botecos, só dois estavam abertos. Tudo bem, um bastava. “Acabou a cerveja”, não faz mal, a gente não queria cerveja, “só tinha cerveja”. No outro, “estamos fechando porque acabou a cerveja”. Mesma história. Que coincidência! Dez e meia da noite, recém. A choperia e a cachaçaria devem estar fechadas. Tem aquele no Córrego Grande, e no caminho tem outros, vamos lá. Fechado, todos fechados. Santa Mônica? Tudo fechado. Opa! Um luminoso, uma porta aberta com mesas e um balcão. Buzina, sinal de luz, é aqui. “Não podemos vender bebida alcoólica, só tem café e energético”. Era uma lan-house. Pelo menos o café era bom. Deu pra segurar até a meia-noite, hora em que eu lembro que tudo é passageiro. E tomo o ônibus pra praia.
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2005-06-16
Só tinha que ser com você
Quarta passada assisti o espetáculo de dança Vácuo, parte da mostra de teatro no TAC, e gostei. Minha amiga, entendida, me explicou que era 'legalzinho', que os caras eram meio amadores. Hoje fui ver Só tinha que ser com você com a Quasar Cia. de Dança. Dança contemporânea nas musicas do Tom Jobim cantadas pela Elis Regina. Hum, isso não combina muito, pensei. Antes do espetáculo. Como combina!
As musicas são muito expressivas, para mim pelo menos. E o grupo conseguiu traduzir cada uma. Na Inútil Paisagem, que é terrivelmente pessimista, os cinco que começaram foram desanimando e saindo um a um, e quando a música terminou, "...se o meu caminho/sozinho é nada/é nada/é nada", restava só o palco vazio. A doida entrou já no chão, uns movimentos estranhos, agoniados, parecia uma minhoca no asfalto quente, e a música dizia "...fica o dito e redito por não dito ... disfarçar minha dor já não consigo ... hoje na solidão ainda custo a entender como o amor foi tão injusto pra quem só lhe foi dedicação ...". Noutra entra um dançando toda a bossa nova, que é quase jazz, movimentos complexos acompanhando as contorções da música, no texto sem ritmo da melodia. Outra aparece fazendo só o jeitinho, o requebro básico do samba, quase sem se mexer, balança o ombro, o quadril, a cabeça, a essência. Mais um fazendo movimentos longos. no embalo mais preguiçoso, como uma onda, um barquinho, um violão. Cada um uma parte, explorando; juntando tudo dá a expressão perfeita da música, que parece, assim analisada, impossível de executar sozinho.
Nada de afetação no cenário, palco livre, cortinas pretas, luzes brancas. Eles não precisam de mais. A dança diz tudo.
Foi no Centro de Convenções da UFSC, pelo Circuito Cultural Banco do Brasil. Dez reais, meia pra estudante, inteira pra estudante que perde o ingresso e tem que comprar outro. Quinta, 16, tem de novo. Quem gosta de dança, vá. Quem não sabe se gosta, vá também. Eu não sabia.
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2005-06-15
Príncipe
M. era inteligente e culto, educado e gentil, um jovem de boa família. Muito prestativo, estava sempre disposto a ajudar quem dele precisasse. Incapaz de sentir raiva ou guardar rancor, era muito compreensivo, sempe justificando mesmo as atitudes mais vis dos outros. Não acreditava que as pessoas pudessem agir mal conscientemente, julgando os piores atos e condutas como meros desvios ou descuidos, sempre justificáveis pelas circunstâncias. Por este motivo não conseguia agir de forma contrária a seus princípios. Sua ingenuidade atraia todo o tipo de aproveitador, e mesmo seus amigos admiravam-se de sua nobreza e desprendimento.
Em um momento de grande mudança na sua vida, conhece, atravéz de um pretendente, uma mulher, com quem terá uma turbulenta relação. Uma mulher muito interessante, densa, com muita personalidade, que no entanto era louca. Por motivos incompreensíveis ela tinha atitudes desconcertantes, e misturava nobres palavras com sandices como expressão de sua neurose. Ele, talvêz a única pessoa que a compreendia, perdoava todas a humilhações e todas as vezes que ela o abandonava, o que no entanto transformara seu amor em piedade, sem que ele deixasse de sentir ainda certo fascínio por ela, além do medo que sempre teve.
A mulher foge, afasta-se, mas eles sempre mantêm fortes vínculos. Nosso herói envolve-se noutra relação muito conturbada. Uma jovem de familia tradicional, muito desejada e com muitos pretendentes, que ela usava para diversão e sistematicamente dispensava. Era muito imatura. Graças ao seu talento na lida com as pessoas e ao seu poder de sedução, podia brincar com sentimentos de muita gente, criando sozinha fantasias infantis e envolvendo nela personagens reais. M. envolveu-se nestas estórias, mas não era capaz de interpretar um personagem, se isto feria seus nobres principios, e não compreendia a mentalidade da moça, tratando-a com cuidado e respeito mas sem distinguir a causa de suas angústias. A fantasia da jovem terminou quando o jogo ficou real demais, com o envolvimento da outra dama, a primeira grande paixão dele.
Toda esta história acaba em grande tragédia. O personagem principal cai em desgraça, sempre levado pelas circunstâncias. Este é um aspecto da vida do príncipe Mitchkin, em O Idiota, que eu li recentemente.
Pode parecer, contada assim, mais um triângulo amoroso de folhetim. Mas no texto de Dostoievsky ela ganha uma profundidade impressionante. O autor russo tem uma maneira de traçar perfis psicológicos complexos quase sem caracterizações ou análises, mas contando a história do personagem, suas atitudes e reações. Seus personagens e histórias serviram de referência e exemplo para grandes pensadores como Freud e Nietzche.
Comprei o livro por acaso, na Feira do Livro do ano passado, Em Porto Alegre, agora descobri que virou mania, que está muito comentado. Então mando o meu. O livro é fantástico, dá pra entender porque um cara de tão longe é tão famoso e porque os livros dele são tão lidos, se tão grossos.
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2005-06-13
Sintomático
Quase nove da manhã, eu chegando no trabalho. Hora de pique na beira-mar, em frente à residência oficial do governador do estado. Meu ônibus fica preso vinte minutos porque um enorme caminhão limpa-fossa está fazendo a manutenção ali...
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2005-06-09
Fim de tarde
Nesta época, coincide a minha volta da aula com o pôr do sol na Ilha. Faço uma boa parte do caminho a pé só para curtir o ar do entardecer e apreciar a mudança de cores.
Hoje tava lindo. O vermelho do horizonte das montanhas ia passando para amarelo até ficar azul. Bem na fronteira da faixa de cor do céu, Vênus brilhava muito, na direção em que o sol se pôs. A Lua tava uma casquinha característica do início da crescente. Do lado dela, aparecia Saturno, e bem acima, na parte do céu que já estava azul marinho, Júpiter. Só apareciam estes astros no céu ainda claro.
Não vejo a hora de pegar minha he-feng e poder explorar esse sistema lindo onde a gente mora.
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