Fiquei caminhahdo pelas ruas próximas para não chegar cedo demais. Tinha pouca gente hoje, de chegada não recohheci ninguém. Apareceu o Douglas. Já deixou claro que não gosta que o chamem de professor. Atrapalhado e sonolento, uma barba malhada de uns três dias. Na sala grande, nos fundos, pouca luz e quase ninguém. Intervalo. De passagem pela sala das almofadas, uma criança brincando no chão e uma jovem de olhos pretos muito grandes. A turma dos principiantes já se reuniu na sala da frente, a pequena com janelas que dão pra rua. De conhecido só o casalzinho e a loira dessincronizada.
Quem é novo, quem tava semana passada. Nomes para serem esquecidos rapidamente. Começa a lenga. Olho pela janela, minha parceira não veio mesmo. O professor se desculpa pelo estado do chão, é que teve ensaio de sapateado antes. Um, dois, três, devagar, rápido, devagar. Treinando o passinho sem música, um, dois, três. O menino exepcional também está, acompanhado da assistente que revira os olhos. Pra frente, pra trás... Nisto chega o professor pequeno da sala grande e fica do lado do professor, pra frente, pra trás, conversando. Já perdi o passo de novo. Pára a aula. Vamos para a sala grande. Só vieram quatro da turma de lá, vamos trocar.
Muito melhor. Me acomodei num lugar espaçoso e recomeçamos; pra frente, pra trás, pro lado, pro outro. Já vai começar a dança aos pares. Minha parceira não veio mesmo. Inda bem que a loira dessincronizada está do outro lado do salão.
Toca uma música muito comovente, todos comentam entusiasmados. Qual era mesmo? Pelo menos agora dançamos com música. Depois de mais explicações para os principiantes: -- Cavalheiros, peguem suas damas. Olhei rapidamente em volta, uma velinha que parecia estar lá por favor a alguém, uma dona duns quarenta e poucos fazendo a primeira aula. Do outro lado do salão vem em minha direção a loira dessincronizada, apontando pra mim e sorindo. Acho que ela também não reconheceu mais ninguém da última aula.
Cabe dizer que eu não sou nenhum pé-de-valsa, apenas um cara sem formação musical que acha bonito dançar; só queria a chance de aprender com alguém do mesmo nível que eu. Depois dessa manifestação de apreço, o que eu podia fazer? Não ganhei nenhuhma explicação, e me convenci de que era meu par natural.
Começamos. Passo errado, fora do compasso. Paramos e começamos de novo. Só balançando; um pra lá, um pra cá; depois dois pra lá, dois pra cá. Bem didático. Conseguimos. Mas não é lento-rápido-lento, é rápido-lento-rápido. Não? Professor! Eu tava certo... No princípio fiquei constrangido de pisar no pé dela, que estava sempre no lugar errado, mas depois lembrei da outra aula: "Em dança de salão quem tem o pé pisado é que tem que pedir desculpas, porque devia estar com o pé no lugar errado", e parei de me sentir culpado. Foi a minha vingança, pois pisei muito no pé da dona.
Aprendi uma coisa na prática, que na teoria já sabia. Tem que conduzir a parceira. No caso a nossa dança só funcionava quando eu ignorava a descoordenação e ia por mim, "vai pra cima que ela sai; puxa que ela vem". Saiu certinho na última música. Saideira com a luz baixa, catei a dona firme, pra não escapar, e rodamos pelo salão. Cometi uns erros, mas consegui recuperar fácil. A dona ficou muito feliz, radiante, e não foi pelo amasso que ganhou, "Ah! Agora acho que entendi".
2005-05-23
Aula de dança
Postado por
Unknown
às
21:25
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